A Necessidade de Uma Nova Abordagem Fiscal
A sustentabilidade das contas públicas no Brasil exige ações robustas e estruturais, especialmente a partir de 2027. Independentemente do partido que vença as eleições em 2026, será necessário implementar reformas significativas que ajudem a limitar o crescimento do déficit público e a trajetória de endividamento. Segundo Fabio Giambiagi, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, essa necessidade surge em um contexto de fragilidade fiscal, amplificada pelas consequências da pandemia de Covid-19 e pelas decisões políticas subsequentes.
O próximo governo terá o desafio de reformular a maneira como os gastos públicos são administrados, priorizando uma abordagem que limite a expansão das despesas obrigatórias e promova uma legislação que permita um controle mais rigoroso sobre o orçamento federal.
Impactos da Pandemia nas Finanças Públicas
Os problemas financeiros que o Brasil enfrenta têm suas raízes nas medidas excepcionais adotadas durante a pandemia. Durante este período, o Auxílio Emergencial foi introduzido, trazendo um aumento significativo nos gastos públicos. Inicialmente concebido como um suporte temporário, o programa se expandiu, afetando diretamente o valor médio dos benefícios sociais e tornando-se politicamente inviável uma redução no valor dos mesmos no governo seguinte.

Antes da pandemia, o programa Bolsa Família tinha um custo estimado razoável, mas a introdução do Auxílio Emergencial elevou drasticamente o número de famílias beneficiadas e os valores dispendidos, resultando em uma pressão fiscal considerável. O governo atual, assim como o anterior, ficou sem alternativas para acomodar essa expansão orçamentária dentro das regras previamente estabelecidas, levando a uma revisão no entendimento do teto de gastos.
As Propostas da SuperPEC para 2027
Para mudar essa trajetória fiscal, Fabio Giambiagi sugere a implementação da Super PEC, uma proposta de emenda constitucional que contemple reformas fiscais estruturais necessárias para garantir a sustentabilidade das contas públicas. Um dos principais pilares dessa proposta é o compromisso de que, em 2027, a variação real do gasto primário seja mantida em zero.
A Super PEC prevê a eliminação gradual do abono salarial até 2031. Esse benefício, considerado por muitos como não mais justificável, foi criado em épocas de maior necessidade, mas hoje apresenta desafios em sua execução e manutenção. Além disso, a proposta sugere a alteração dos critérios de vinculação do financiamento da saúde e da educação aos novos padrões de crescimento econômico.
Extinção do Abono Salarial: Uma Medida Controversial
A extinção do abono salarial é uma das questões mais complexas na proposta de reforma fiscal. A eliminação desse benefício, que atinge um segmento significativo da população, requer uma abordagem cuidadosa para garantir que os mais vulneráveis não sejam prejudicados. Giambiagi argumenta que, ao retirar gradualmente esse auxílio, o governo pode liberar recursos para outras áreas prioritárias.
Entretanto, essa medida pode ser controversa, levando a debates acalorados sobre a responsabilidade social do Estado e o impacto em famílias que dependem dessa assistência. A implementação de compensações adequadas será crucial para mitigar os efeitos negativos que poderiam advir da extinção do abono salarial.
Mudanças nos Padrões de Gasto para Saúde e Educação
As propostas da Super PEC também enfocam a vinculação dos gastos com saúde e educação a critérios mais rígidos, limitando os aumentos reais dessas despesas. A sugestão é que os gastos com saúde sejam indexados ao teto de gastos, enquanto as despesas com educação passem a ser ajustadas apenas pela inflação medida pelo IPCA.
Essa abordagem pode ser vista como uma medida necessária, considerando as projeções demográficas que mostram uma redução no número de crianças e adolescentes em idade escolar no Brasil. Giambiagi defende que, mesmo que se congele o valor real da despesa, isso não significa que a qualidade dos serviços públicos deve ser comprometida, visto que a diminuição da população jovem gera um aumento natural nos gastos per capita.
O Papel das Reformas Legislativas na Redução de Gastos
As reformas legislativas propostas são consideradas fundamentais para a realização das mudanças necessárias no cenário fiscal brasileiro. Sem a aprovação da Super PEC e outras iniciativas legislativas, será difícil conter o crescimento dos gastos públicos, que uma vez que seguem um padrão crescente, elevam ainda mais a dívida pública e o déficit fiscal.
Giambiagi enfatiza a urgência de que as reformas sejam abordadas de forma conjunta e simultânea, permitindo um ajuste mais eficaz e organizado das contas públicas. Essa sinergia entre as várias emendas e propostas permitirá que o governo apresente um plano coeso e viável, facilitando a sua aprovação e implementação no legislativo.
Expectativas Econômicas Pós-Implementação da SuperPEC
A adoção das propostas contidas na Super PEC promete um cenário econômico mais equilibrado e previsível para os próximos anos. Embora no início essas medidas possam trazer um impacto econômico restritivo, a expectativa é de que, com o tempo, a economia brasileira consiga se recuperar e crescer de forma equilibrada, levando a uma redução gradual do déficit fiscal.
As projeções em torno do PIB indicam que, entre 2026 e 2030, o Brasil poderia alcançar um ajuste primário próximo de 1,3% do PIB. Essa melhora nas contas públicas, paralela à diminuição dos gastos com juros, ajudaria a reduzir o déficit público para menos de 5% do PIB no final do ciclo de governo, quando atualmente as expectativas giram em torno de 9% do PIB em 2026.
A Dívida Pública e Suas Implicações Fiscais
A trajetória da dívida pública também será influenciada pelas reformas propostas. Embora a dívida continue a crescer, o ritmo desse crescimento deverá ser substancialmente reduzido, passando a uma média de 1% do PIB até 2029 e menos de 0,5% do PIB em 2030. Essa mudança no padrão de crescimento da dívida é essencial para garantir a sobriedade fiscal e a confiança do mercado na sustentabilidade da economia brasileira.
Desafios e Oportunidades para o Próximo Governo
O próximo governo enfrentará desafios significativos ao tentar implementar essas reformas. A resistência política e a necessidade de diálogo entre diferentes partes interessadas serão cruciais para o sucesso das iniciativas propostas. Giambiagi alerta que a implementação das políticas e reformas não deve ser vista como uma punição à população, mas como uma adequação necessária à realidade fiscal atual.
Além disso, a realização de um ajuste fiscal focado na sustentabilidade a longo prazo abrirá espaço para novas despesas discricionárias que são essenciais para o funcionamento adequado da administração pública e o investimento em infraestrutura e serviços relevantes até 2030.
O Caminho para a Sustentabilidade Fiscal no Brasil
Implantar um projeto de ajuste fiscal focado na estabilidade é fundamental para a credibilidade e a viabilidade do país. Se o Brasil conseguir implementar as reformas propostas e gerenciar sua dívida pública de maneira responsável, isso poderá resultar na redução de necessidades de financiamento e uma renovação da confiança do mercado.
A longo prazo, as políticas certas podem colocar o Brasil em um caminho de crescimento sustentável, garantindo que as contas públicas sejam mantidas em uma trajetória saudável e que o país possa atender adequadamente suas obrigações financeiras tanto internas quanto externas.

Profissional com passagens por Designer Gráfico e gestões e atuação nas editorias de economia social em sites, jornais e rádios. Aqui no site JornalTudoBH.com.br cuido sobre quem tem direito aos Benefícios Sociais.


