Dados que Surpreendem
A primeira e mais impactante informação que merece destaque é a pesquisa realizada pelo instituto Nexus, que revelou que 59% dos brasileiros nunca foram a um jogo de futebol. Este dado é alarmante se considerarmos a fama do Brasil como “país do futebol”. Além disso, 22% dos entrevistados informaram que já frequentaram jogos, mas não têm mais vontade de ir. Esses números evidenciam uma mudança significativa na relação da população com o futebol, um esporte que tradicionalmente é parte fundamental da cultura brasileira.
Os dados também mostram que, dos que ainda frequentam os estádios, apenas 2% assistem a jogos toda semana. Apenas 2% vão uma vez a cada duas semanas, e 5% afirmaram que comparecem às partidas “algumas vezes” por mês. Um 10% simplesmente vai a alguns jogos no ano. A maioria dos torcedores prefere acompanhar os jogos pela televisão ou aplicativos, com 47% assistindo semanalmente, enquanto 26% não acompanha nenhuma partida.
O Que Diz a Pesquisa
A pesquisa aponta que a principal justificativa para a poca frequência dos brasileiros aos estádios é a falta de interesse, mencionada por 41% dos entrevistados. Em seguida, aparecem questões como segurança e violência, com 23%, e o custo dos ingressos, que afasta 12% dos torcedores. Essas respostas indicam que a presença dos torcedores nos estádios não depende apenas da paixão pelo futebol, mas também de fatores sociais, econômicos e de segurança.

O COO da Roc Nation Sports no Brasil, Thiago Freitas, destaca que a cultura de frequentar estadios no Brasil não é comparável à dos argentinos ou europeus. O fenômeno da violência associada às torcidas organizadas também é um ponto crítico que afastou muitos torcedores, ao ponto de os estádios se tornarem sinônimos de riscos e medo.
Falta de Interesse e Segurança
A falta de interesse, que lidera as razões apresentadas para justificar a ausência dos torcedores, é um reflexo de um fenômeno cultural mais amplo. Ao longo dos anos, o futebol, que antes era um agregador social, passou a ser visto por muitos como uma mera forma de entretenimento. A transformação dos estádios em ambientes hostis e inseguros também contribuiu para essa percepção negativa.
A violência nos estádios é um aspecto que preocupa os cidadãos. O medo de confrontos entre torcidas e a falta de segurança na entrada e saída dos jogos desencorajam muitas famílias e indivíduos a saírem de casa para assistir a uma partida ao vivo. Isso gera uma aura de desconfiança e insegurança, ampliando a crença de que os estádios não são mais o lugar festivo e seguro que deveriam ser.
Os Motivos da Baixa Participação
Com as informações coletadas, é evidente que a pouca participação dos brasileiros nos jogos de futebol é causada por um mix complexo de fatores. Por um lado, a ausência de interesse pode ser atribuída ao surgimento de novas formas de entretenimento que competem diretamente com o futebol, como plataformas de streaming, jogos online e uma ampla gama de conteúdos disponíveis nas redes sociais. Por outro lado, os problemas estruturais enfrentados pelos estádios brasileiros também desempenham um papel crucial.
Insuficiência na infraestrutura dos estádios, acesso difícil e questões de transporte se somam ao custo dos ingressos, que têm escalado de forma preocupante nos últimos anos. Escolher assistir a um jogo em casa, com a comodidade de um bom sofá e a liberdade de escolher a bebida e a comida, se tornou uma opção atrativa para muitos. Além disso, a pandemia da COVID-19 e as restrições de público contribuíram para que alguns torcedores se acostumassem a apreciar o futebol de forma diferente, longe dos estádios.
Por Que os Preços Afugentam Torcedores?
O preço dos ingressos é uma barreira significativa para a participação dos torcedores. Para muitas famílias, ir a um jogo de futebol se tornou um grande investimento, o que pode ser dispendioso, especialmente quando consideramos o custo de transporte, alimentação e o tempo envolvido. Os índices de inflação e a crescente desvalorização da moeda brasileira tornam essa experiência ainda menos acessível.
Além disso, a relação entre os clubes e seus torcedores se complica quando os preços se elevam. O que antes era uma saída prazerosa, que unia amigos e famílias em torno de um evento esportivo, agora é visto como um luxo. Essa percepção tem afastado não apenas os torcedores mais jovens, mas também famílias inteiras que não conseguem arcar com os custos de frequentar um jogo de futebol.
A Nova Geração e o Futebol
A nova geração tem um comportamento diferente em relação ao futebol, impactada pela tecnologia e pela maneira como consome entretenimento. As crianças e adolescentes hoje têm acesso a diversas plataformas digitais que oferecem conteúdo sobre o esporte, mas de uma forma muito diferente. Ao invés de estarem expostas ao futebol apenas nos estádios, elas absorvem informações, jogam videogames relacionados ao futebol e assistem a vídeos de influenciadores sobre esporte nas redes sociais.
Esse novo formato de consumo gera uma mudança na forma como os jovens se relacionam com os clubes. A ideia de serem torcedores assíduos pode não ser tão forte quanto a de serem fãs de jogadores, com o foco em performances individuais mais do que em equipes. Isso pode, a longo prazo, ressignificar o que significa torcer por um time, influenciando a próxima geração de torcedores a se distanciar da experiência coletiva dos jogos.
Mudanças na Cultura do Torcer
As mudanças na cultura de torcer pelo futebol são evidentes e refletem valores mais amplos da sociedade brasileira. O que antes era um evento familiar, onde torcedores se reuniam para assistir a uma partida e confraternizar, agora se transforma em uma vivência muitas vezes marcada por distanciamento e individualismo. A presença digital e os novos paradigmas sociais criaram um cenário onde a interação social ocorre em plataformas online, o que minimiza a necessidade de estar fisicamente presente em um estádio.
As torcidas organizadas, que outrora eram consideradas um importante fator que impulsionava as arquibancadas, também enfrentam um processo de transformação. O movimento de torcida se tornou um reflexo e, muitas vezes, uma extensão das tensões sociais presentes na sociedade. A militarização de alguns grupos e a violência associada a eles tornam os encontros em jogos muito mais complexos e perigosos para aqueles que desejam simplesmente torcer.
Impacto Econômico e Social
O afastamento dos torcedores dos estádios tem implicações diretas não apenas no mundo dos esportes, mas também na economia local que depende desses eventos. A presença de torcedores movimenta diversos setores: desde os ambulantes na porta dos estádios até os restaurantes e bares próximos aos locais dos jogos. O investimento em segurança e conforto nos estádios, portanto, não é apenas uma questão de assegurar a integridade física dos torcedores, mas também uma necessidade para reestabelecer o fluxo econômico.
Além disso, a diminuição no público nos estádios causa impactos na própria cultura do futebol, que se vê também descreditada por novos consumidores que preferem outras formas de entretenimento. É essencial que tanto as federações quanto os clubes se unam para criar estratégias que renovem o apelo pelos jogos ao vivo, promovendo experiências que sejam mais seguras e que façam sentido para o novo perfil de torcedor brasileiro.
Alternativas ao Futebol nos Estádios
Além da melhoria nas condições de segurança e acessibilidade, os clubes precisam explorar alternativas que agreguem valor à experiência do torcedor no estádio. Eventos paralelos, como shows, feiras, exposições e ações culturais, podem ajudar a criar um ambiente mais acolhedor e atrativo. Proporcionar uma vivência que vá além dos 90 minutos de um jogo pode ser fundamental para atrair novos públicos.
A tecnologia também pode desempenhar um papel essencial nesse cenário. Por meio de aplicativos que proporcionam interação em tempo real, experiências personalizadas com integração entre redes sociais e até realidade aumentada, os clubes podem criar um ecossistema de entretenimento que faça com que as pessoas queiram estar presentes fisicamente para aproveitá-lo.
Reflexões sobre o Futuro do Futebol
O futuro do futebol nos estádios brasileiros pode ser repleto de desafios, mas também apresenta oportunidades valiosas. É crucial entender que o futebol não é apenas um jogo, mas sim um fenômeno social que reflete a cultura e as transformações da sociedade. Para que a paixão pelo futebol continue a ser alimentada, é necessário responder às novas demandas e mudar a percepção que existe sobre as vivências nos estádios.
A integração de ações de marketing e campanhas sociais que abordem questões de inclusão, segurança e pertencimento pode ajudar a restabelecer o laço entre os torcedores e suas equipes. Além disso, repensar a função social dos clubes e considerar seu papel em suas comunidades podem ser fatores que ajudariam a resgatar os torcedores e fidelizá-los a uma nova geração de consumo.
Portanto, o caminho é longo, mas a possibilidade de revitalizar o amor pelo futebol é um desafio que pode ser vencido com esforço coletivo e estratégias inovadoras.

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