Inter: queda de 40% no ano é ‘reação extrema sobre prazo muito longo’, diz CEO

Causas da Queda nas Ações do Inter

As ações do Inter&Co (INTR), listadas na Nasdaq, caíram mais de 40% em 2026, um movimento inesperado, especialmente considerando que a performance do banco digital se destacou com recordes de lucro consecutivos. Essa discrepância entre a valorização das ações e os resultados positivos trouxe apreensão aos investidores, que começaram a questionar as razões desse descompasso.

Um dos pontos de atenção para os analistas financeiros é a inadimplência no setor de crédito ao varejo. A interação entre o desempenho financeiro do banco e o aumento dos índices de inadimplência pode ter contribuído para essa desvalorização no mercado. As incertezas em relação a como essa inadimplência será gerida nos próximos trimestres está gerando ansiedade entre os investidores.

Perspectiva do CEO sobre o Mercado

A equipe do Inter, liderada por Alexandre Riccio, CEO do banco, junta-se a analistas para discutir essas preocupações. Em uma coletiva recente, Riccio afirmou que a percepção negativa do mercado pode ser vista como uma “reação extrema” em relação a fatores que, embora afetem a confiança dos investidores, não refletem a solidez atual da operação do banco.

O CEO ressaltou que a execução no dia a dia do banco permanece forte, e as projeções de resultados, visando um horizonte mais longo, podem estar criando um viés negativo nas suas ações. O foco do Inter, segundo Riccio, é em uma gestão eficaz, que tem potencial para reverter essa situação.

Análise da Inadimplência no Varejo

Conforme os dados apresentados, a inadimplência no crédito ao varejo está em um ponto crítico, considerando que o pico, segundo a economista-chefe Rafaela Vitoria, deve ocorrer agora, no terceiro trimestre de 2026. O aumento do índice de inadimplência, compreendido como um indicativo de risco para os credores, é uma preocupação expressa por analistas e investidores. O NPL (Non-Performing Loan) acima de 90 dias subiu de 4,6% no segundo trimestre de 2025 para 5,3% no mesmo período de 2026, evidenciando um aumento significativo em um espaço curto de tempo.

A evolução da inadimplência é monitorada de perto pela equipe do Inter, que acredita estar observando os primeiros sinais de melhora, mesmo que de maneira lenta. Essa análise é vital para o planejamento estratégico do banco e sua capacidade de continuar operando com rentabilidade mesmo em períodos de aperto financeiro no mercado.

Desempenho Consistente em Lucros

No segundo trimestre de 2026, o Inter destacou um lucro líquido de R$ 421 milhões, um aumento de 33,6% comparado ao mesmo período do ano anterior. Essa performance não passou despercebida, especialmente no contexto de um mercado em turbulência. O retorno sobre o patrimônio (ROE) também apresentou um crescimento, alcançando 16,3%, sendo este um indicativo da saúde financeira e eficiência operacional do banco.

Além disso, a receita líquida do Inter subiu 31,7%, consolidando-se em R$ 2,6 bilhões, e a eficiência operacional melhorou, com o índice de eficiência caindo para 42,1%, o que representa o menor número na história do banco até o momento. Com base nos resultados robustos e tendência de crescimento observado, a expectativa é de que o Inter será capaz de navegar pelos desafios da inadimplência sem comprometer sua trajetória de crescimento a longo prazo.

Expectativas de Crescimento para 2026

Para o ano de 2026, o Inter estipulou metas de crescimento para a carteira de crédito, previstas entre 25% a 30%. Esta projeção fica um pouco abaixo dos 40% registrados em 2025, novamente refletindo uma resposta prudente ao cenário incerto do mercado. Tal ajuste na expectativa de crescimento demonstra um comprometimento com a sustentabilidade e responsabilidade financeira principalmente neste contexto em que a inadimplência se torna uma preocupação crescente.

Riccio mantém um otimismo cauteloso, sustentando que o banco está posicionado para enfrentar a atual conjuntura, dado que dois terços da carteira de crédito possuem garantias, o que pode proteger a instituição de perdas acentuadas em casos de inadimplência.

Impacto da Política Monetária no Crédito

A atual política monetária tem um papel vital na evolução das taxas de inadimplência e nas projeções de crescimento do crédito. Com a taxa Selic chegando a 15% no ano anterior, a expectativa é que os efeitos dessa política durem de nove a doze meses antes que a inadimplência atinja seu pico. Rafaela Vitoria mencionou que a lenta redução da Selic, assim como a oferta de crédito e estímulos fiscais, mantém a demanda por crédito em alta, mas ainda assim traz riscos que precisam ser mitigados.

A prudência na concessão de crédito e a análise cuidadosa de perfis de risco tornam-se ainda mais cruciais durante períodos de alta taxa de juros, quando os consumidores podem lutar para manter seus pagamentos em dia. Assim, as adaptações nas estratégias de crédito do banco visam garantir a estabilidade em um cenário volátil.

Mudanças na Carteira de Crédito do Inter

A gestão da carteira de crédito do Inter está sendo revisada constantemente, levando em conta as condições macroeconômicas. Cerca de 67% do crédito está garantido, sendo predominantemente associado a financiamentos de imóveis e produtos de home equity, o que fornece um importante colchão para a proteção contra inadimplência. Apesar disso, o banco relata que cerca de um terço da sua carteira de crédito está sem colaterais, com cartões de crédito sendo a principal linha de produtos oferecidos nesta faixa.

Riccio enfatizou que a composição da carteira de crédito foi projetada para resistir a ciclos de inadimplência, e os ajustes na política de baixa contábil foram implementados para garantir um controle mais rigoroso na avaliação de perdas potenciais.

O Papel do Consignado Privado

O crédito consignado privado, um produto que cresceu de maneira exponencial para o Inter, saltando de R$ 700 milhões para R$ 2,8 bilhões em apenas um ano, está entre os fatores que exercem pressão sobre os resultados. Em muitos casos, a inadimplência no consignado é atribuída a transições de emprego, onde a dificuldade de manter o desconto em folha pode gerar atrasos nas contas. A revinculação desse desconto no eSocial tem demorado, criando um efeito de inadimplência inadvertido.

A partir de setembro, o processo de revinculação começou a ser normalizado, e a expectativa é de que isso contribua para uma melhora na regularização de pagamentos a partir de outubro ou novembro. Além disso, novos produtos e seguros atrelados a essa modalidade estão sendo implementados para melhorar a segurança e garantir maior conforto aos clientes no cumprimento de suas obrigações financeiras.

Estratégias para Reduzir a Inadimplência

Para a melhoria da inadimplência, a equipe de gestão do Inter está priorizando clientes de menor risco desde o segundo trimestre e implementando novas ações operacionais que visam a regularização de pagamentos. O monitoramento contínuo e o ajuste das práticas de crédito são essenciais para sustentar a performance do banco frente ao crescimento da inadimplência.

O foco em ações corretivas e preventivas se reflete na comunicação ativa com os clientes, bem como na oferta de produtos que garantem a continuidade do relacionamento financeiro e oferecem flexibilidade de pagamentos, especialmente durante períodos de dificuldade financeira.

O Futuro das Ações do Inter na Nasdaq

À medida que o Inter navega num ambiente onde a volatilidade das ações tem sido uma preocupação constante, a mudança nas negociações de BDRs com a substituição do patrocinado para um não patrocinado, a partir de 16 de outubro, poderá trazer nova dinâmica. Embora a cisão tenha um impacto direto, espera-se que a maior base de acionistas estrangeiros contribua para uma menor volatilidade e aproximação dos múltiplos do Inter comparado às fintechs internacionais.

A continuação do monitoramento de resultados e ajustes nas estratégias operacionais será vital para assegurar que o Inter solidifique sua posição no mercado e atrai novos investidores, focando em um futuro de crescimento sustentável e rentável.